Convers(a)fiada

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Telefones

Foto: Romildo Souza

- Oi, amiga!!! E então??? Tu foi no show do “Beringela com Chocolate”? Não??? Fala sério!!! Não acredito!!!

- Pô, não demora que o ônibus tá quase saindo…

- Sossega, Nerivaldo!!! Não, amiga. Não é ninguém não. É meu irmão enchendo o saco. Com quem??? Aquele lá da “Viçosa”??? Me conta isso direito. Tu falou que não queria nada com ele… Ah, só ficou??? Safadinha, né? Depois dá uma de santa… Já ví que só eu fiquei sem pegar ninguém, no fim de semana…

- O motorista já tá la dentro. Desliga aí!

- Num enche, Nerivaldo!!! Cacete!!! Não, amiga, não é com você não. É o xarope do meu irmão. Se é bonito? Bom, tem gente com gosto pra tudo, né? Se quiser eu te apresento. Mas vou logo avisando: é uma mala sem alça!

- Beleza, Vanislene!!! Tá satisfeita? Pode ficar aí falando mais uma hora e meia!!! O ônibus acabou de sair.

- Mas que merda! Logo agora que a droga do meu cartão zerou…

Vida rolante

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escada1

Foto: Romildo Souza

Sobe, desce, sobe, desce, anda, para, anda, para.

Corre que o ônibus já vai sair. Motorista, me espera!!!

Sobe, desce, sobe, desce. Olha o amendoim, torradinho, descascado, quentinho…

Dá licença, tô com pressa, me desculpa, não empurra, sai da frente, pô! Quero passar!!!

Sobe, desce, sobe, desce, sobe, desce.

Não, não é aqui, não.  É na plataforma inferior. Tem que descer a escada, virar à direita e seguir direto.

Box 9. Não! 9 não! É o 15!

Sobe, desce, anda, anda, anda, anda mais, anda mais ainda, sobe de novo, desce outra vez. Não acha. Desiste. Vai pra casa…

Sobe, desce, dia, noite, madrugada.

Cheira cola, cheira esmalte, cheira thinner, cheira éter, morre cedo. Ninguém vê, ninguém liga…

Sobe ou desce, céu ou inferno, pra cima ou pra baixo? Nada… nada… nada…

Sobe? Não, não sobe nem desce. Quebrou a escada…

Apocalipsis literis – uma crônica ortográfica

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portugasaurus1

Manhã de 2 de janeiro de 2009. Em alguma cidade desse imenso Brasil, o telefone toca na casa do Amigo 1.

- Alô?!

Do outro lado da linha, o Amigo 2, faz votos de um ano novo cheio de saúde, esperança, etc., e arremata com a última novidade (que na verdade é a primeira do ano):

- E então, preparado para aprender a falar e escrever tudo de novo?

- Como assim?

- É! Agora vamos ter que escrever “farmácia” com “ph”, camisa vai se chamar camisola, bola de futebol virou pelota, todos os acentos mudaram, o mundo virou de cabeça para baixo! O Apocalipse chegou!!!

O Amigo 1, já acostumado aos exageros do outro, tenta chamá-lo à razão:

- Que é isso? Não vai ser bem assim. As alterações serão mínimas e apenas na escrita. A língua falada não muda em nada. Não vamos adotar o vocabulário lusitano.

- Vamos sim! Eu vi ontem mesmo na televisão. No canal estatal. Tinha uns caras, os maiores catedráticos da língua portuguesa, falando que vai mudar tudo. Como é que a gente vai fazer agora? Vamos ter que aprender tudo de novo.

- Cara, acho que você está meio desinformado. Não vai ser…

- Tô falando que vi ontem na televisão! E é tudo por causa de um grupo de editores que não está conseguindo vender livros de autores brasileiros em Portugal. Os portugueses exigem que sejam traduzidos (?) por profissionais portugueses, que cobram caríssimo! Acho isso um absurdo! Com tanto problema pra resolver no país, eles ficam inventando reforma ortográfica!

- Mas as mudanças são mínimas e não afetam só o Brasil. Portugal e os outros países de língua portuguesa, no continente africano, também vão ter que fazer adaptações. Acho que você não se informou direito… Eu leio edições portuguesas sem nenhum problema, acredito que eles façam o mesmo com os livros brasileiros.

- Não! Vai mudar tudo! Vamos falar como os portugueses!

- Espera aí. Vou pegar aqui alguma coisa que imprimi da internet… Está aqui: as letras K, W e Y voltam oficialmente ao alfabeto, o trema foi extinto, não se usa mais o acento agudo nos ditongos abertos das paroxítonas, como “epopéia”, “jibóia”…

- Mas do jeito como eles estavam falando ontem no programa, vai mudar tudo!!!

- Você já leu o texto da lei? Aquela que regulamenta a reforma?

- Não, não li. Mas eu vi os maiores especialistas falando…

- Tá bom. Quais os nome desses especialistas?

- Ah, eu não vi os nomes deles, mas eles disseram que…

- Olha, vamos mudar de assunto. Acho que é melhor assim.

- Mas eu sei o que eu vi na TV! Estou dizendo que…

- Vamos mudar de assunto ou então eu vou ter que desligar.

- Mas vai mudar isso e aquilo e…

- Já disse: vamos mudar de assunto…

- Ah, também não vou mais falar nada! Click!!!

O telefone é desligado bruscamente do lado do Amigo 2, seguindo-se o conhecido sinal de ocupado.

Perplexo, o Amigo 1 fica parado por instantes, com o telefone na mão, perguntando-se:

- Essa conversa surreal aconteceu ou foi um delírio de início de ano?

Depois de passado o choque, o Amigo 1 resolve enviar, por e-mail, para o Amigo 2, um guia de esclarecimento a respeito da tão incompreendida reforma ortográfica. E, para que não sobre nenhuma dúvida, inclui o texto integral da lei que a regulamenta. Além disso, recomenda ao seu velho Amigo que use de mais ponderação e se informe um pouco, antes de discutir esse tipo de questão.

Mais surpreendente que a bizarra conversa telefônica foi a resposta à mensagem eletrônica enviada. Em um texto rico em erros de português, causados obviamente pela fúria do Amigo 2 no momento em que o redigia, estava expressa toda a indignação daquele que se considerava ofendido e ultrajado. Entre outras coisas, achava ter sido chamado de burro, desinformado, incapaz de absorver informações que via na TV etc.

Diante de tal reação que misturava infantilidade, intolerância e a incapacidade de, pelo menos, aventar a possibilidade de não estar completamente certo em seu ponto de vista, o Amigo 1 resolveu desistir de fazer qualquer outro comentário, ou mesmo de responder ao e-mail, com as correções ortográficas necessárias. Virou a página e pensou:

- Isso pode render uma boa crônica…

Para evitar que fatos como esse venham a acontecer com vocês, caros leitores, seguem abaixo os links para as informações a respeito da tão falada reforma ortográfica.

www.livrariamelhoramentos.com.br/Guia_Reforma_Ortografica_Melhoramentos.pdf

www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Decreto/D6583.htm

Em tempo: se, aqui no Brasil, alguém o chamar de “filho de rapariga”, considere como ofensa. Por outro lado, “paneleiro” continua sendo o profissional que faz reparos em utensílios de cozinha.

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