Pois é. José Saramago está longe de ser uma unanimidade. Melhor para ele, pois como dizia o Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra” (aliás o Nelson também nunca foi unânime). Quem gosta, realmente gosta e quem não gosta, geralmente detesta. Realmente não é mesmo uma leitura muito fácil, principalmente se levarmos em conta que alguns parágrafos se estendem por duas ou mais páginas. Uma coisa, porém, não se pode negar: o homem sabe escrever como ninguém – claro, sou suspeito para falar pois gosto muito, apesar de só ter lido quatro de seus livros. Ainda na semana passada terminei de ler “As pequenas memórias” e, entre muitos relatos de acontecimentos banais da infância e adolescência do escritor (devo dizer, banais, mas escritos com maestria e lirismo) selecionei o pequeno trecho que coloco a seguir, pela poesia com que é tratada a velhice e a morte.
Para encerrar a semana mais leves:
“Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste,
com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.” Assim mesmo. Eu estava lá.”
Recomendo:
“Ensaio sobre a cegueira”
“A jangada de pedra”
“O evangelho segundo Jesus Cristo”
“As pequenas memórias”


